Como você tá?

Estou bem e você?

To bem também. 🙂

— — — — — —

Na verdade, na verdade, deixa eu te contar? eu não to bem não. Tô confusa, tô triste, tô com medo e tô ansiosa. Ah, e tô sincera também.

Porque para mim faz cada vez menos sentido travar conversas superficiais ou mentirosas sobre os meus sentimentos. Tenho tentado parar de responder no automático ao ser questionada e realmente me perguntar: como estou? como sinto?

Está sendo um exercício e tanto. Primeiro, porque a gente não está acostumado a se deixar sentir, a se perceber, a se ouvir. A gente tende a viver reagindo e focando o tempo todo no que está fora da gente: na rede social, no trabalho, nx respetivx. A falta de hábito até faz com que nos faltem palavras para descrever ou elaborar esse negócio esquisito e subjetivo que é o sentir. Com o foco fora, acabamos respondendo o que os outros querem ouvir.

Se a gente foge de encarar nossos próprios sentimentos — com os quais muitas vezes podemos fazer algo para melhora-los, é ainda mais difícil lidar com os sentimentos e, especialmente, com o sofrimento alheio, aquele que no dá a certeza da impotência. Já me aconteceu inclusive, de, em um momento difícil, receber uma ligação de uma amiga, que começava dizendo que queria saber de mim… e depois disso falou sem parar, se despediu e desligou. É duro ver as pessoas que amamos sofrendo. Então, acordamos socialmente que quando alguém perguntar se você tá bem, vc diz que tá, sem muitos detalhes, delongas ou constrangimentos, independente do que esteja lhe acontecendo.

                   Arte de Moletom — https://www.facebook.com/moletomm

Mas é também experimentando esse papel de “sincera demais” e me vulnerabilizando que tenho me conectado de forma mais profunda com as pessoas. A maioria, é verdade, se surpreende, desvia do assunto, alguns fingem que eu não falei nada (e é até engraçado). Mas alguns, acabam vendo nesse ato um espaço. Para se aproximar, para se abrir também, para confiar, para trocar, para cuidar, para aprofundar. E tem sido lindo ver esse resultado.

Cada pessoa é um mundo. Complexo e belo. Cheio de amores e de desafios. Toda pessoa tem uma história interessante e contar e ouvir histórias podem ser belos rituais de cura. Tirar máscaras sociais, mostrando quem se é, o que se ama, o que se sente é um ato libertador. Da mesma forma que ter disposição para olhar por de trás das máscaras sociais, demonstrando interesse genuíno em perceber o outro e se conectar — quando correspondido — permite acessar um pouquinho de um mundo totalmente novo, ampliando o meu próprio. Com isso, é mais fácil tirar os rótulos, as caixinhas, os muros que nos separam.

Mas é também ir na contramão, se colocando disponível quando é cool ser ocupado de mais, dormir de menos, trabalhar 16 horas por dia-inclusive final de semana. E se vulnerabilizar, na sociedade do bola-pra-frente-tá-tudo-bem, é correr o risco de ser julgado e condenado. É construir pontes, quando todo mundo está se defendendo.

Sei que esse tipo de diálogo superficial é importante, e a gente não precisa desabafar com o caixa do banco. Ele cumpre relativamente bem o papel da educação com (des)conhecidos. Mas cada vez que fazem a pergunta “como você tá?” é como se um portal se abrisse e você pudesse escolher abrir seu mundo para aquela pessoa ou não. Responder superficialmente é manter a porta fechada (e veja bem, pode ser importante fechar portas… com tanto que não sejam todas as portas… porque aí dá claustrofobia). Cada porta que a gente não abre é um novo ponto de vista que deixamos de conhecer/apresentar, um monte de experiências que deixamos de viver/proporcionar, um monte de coisas que deixamos de aprender/ensinar. E no final da nossa jornada, a gente só leva o que a gente experimentou.

Vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir?

texto de Luiza Campos, taróloga do PAXXI Rio

originalmente publicado no medium @luizaluka